Starmer admite erro na nomeação de Mandelson enquanto Downing Street rejeita encobrimento
Primeiro-ministro britânico assume responsabilidade pela escolha de Lord Mandelson para embaixador nos Estados Unidos, após documentos revelarem alertas prévios sobre riscos reputacionais ligados à sua relação com Jeffrey Epstein.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, admitiu ter cometido um erro ao nomear Lord Peter Mandelson como embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos, num caso que continua a provocar forte polémica política em Westminster. A admissão surge depois de documentos oficiais mostrarem que Downing Street foi alertada, antes da confirmação da escolha, para possíveis riscos reputacionais associados ao político trabalhista.
As declarações de Starmer marcaram o primeiro comentário público após a divulgação dos ficheiros, que revelam que a nomeação já estava rodeada de dúvidas internas. O centro da controvérsia está na relação passada de Mandelson com o financista Jeffrey Epstein, condenado por crimes sexuais e cuja rede de contactos continua a gerar escândalos políticos e judiciais em vários países.
Documentos aumentam pressão sobre Downing Street
Os documentos divulgados indicam que um relatório de diligência enviado ao primeiro-ministro em 11 de dezembro de 2024 já identificava a nomeação como portadora de potencial “risco reputacional”. O memorando fazia referência, entre outros pontos, a um relatório de 2019 encomendado pelo banco JP Morgan, segundo o qual Epstein mantinha uma relação particularmente próxima com Mandelson.
O ficheiro também mencionava que Mandelson teria permanecido numa propriedade de Epstein em junho de 2009, altura em que o financista se encontrava detido. A revelação reforçou críticas de que a escolha para um cargo diplomático tão sensível não refletiu um padrão de prudência à altura do posto.
Oposição fala em possível encobrimento
O Partido Conservador acusou o governo de tentar esconder elementos centrais do processo de nomeação, ao notar que duas áreas dos documentos destinadas às observações do primeiro-ministro surgiram vazias na versão publicada. A líder conservadora, Kemi Badenoch, afirmou que, pela sua experiência governativa, seria natural esperar anotações ou instruções políticas nessas secções.
Downing Street rejeitou a acusação de imediato. O porta-voz oficial de Starmer afirmou que não houve qualquer manipulação e que os documentos foram divulgados exatamente na forma em que regressaram do gabinete do primeiro-ministro. A resposta, contudo, não foi suficiente para silenciar as suspeitas levantadas pela oposição.
Queda de Mandelson e dúvidas sobre verificação de segurança
Lord Mandelson assumiu funções em fevereiro de 2025, mas foi afastado em setembro do mesmo ano, depois de Downing Street sustentar que novas informações haviam revelado uma dimensão mais profunda da sua ligação a Epstein. A queda do antigo embaixador transformou-se rapidamente num problema político mais vasto para o governo trabalhista.
Os documentos mostram ainda que Mandelson terá recebido briefings sobre material sensível do Foreign Office antes de o processo formal de verificação de segurança estar plenamente concluído. Um e-mail interno de dezembro de 2024 já previa sessões de informação em níveis superiores, apesar de certas autorizações de segurança ainda estarem em curso.
Pontos centrais do caso
- Starmer reconheceu publicamente que cometeu um erro na nomeação.
- Documentos internos alertavam para risco reputacional antes da confirmação oficial.
- A oposição acusa o governo de possível encobrimento na divulgação dos ficheiros.
- Mandelson foi afastado meses depois do início das funções diplomáticas.
- O caso levantou dúvidas sobre diligência política e segurança institucional.
Investigação, ética e novo desgaste político
A pressão aumentou também do lado dos Liberais Democratas, que defendem que o primeiro-ministro deve ser analisado pelo conselheiro independente de ética, Sir Laurie Magnus, para apurar se houve violação do Código Ministerial ao garantir no Parlamento que “todo o devido processo” foi seguido.
Os conservadores, por sua vez, pediram uma investigação formal sobre um potencial encobrimento e sobre eventuais falhas ou lacunas no material tornado público. Já o Partido Verde argumentou que o episódio suscita sérias dúvidas sobre o discernimento político do chefe de governo e sobre os critérios usados para uma das nomeações diplomáticas mais importantes do país.
Mandelson insiste que não mentiu
Lord Mandelson continua a sustentar que não enganou o primeiro-ministro, não se recorda de ter sido confrontado pessoalmente sobre Epstein durante entrevistas de verificação e afirma ter respondido de modo completo às perguntas escritas relativas aos seus contactos com o financista após a condenação deste.
O antigo ministro abandonou o Partido Trabalhista em fevereiro e foi depois detido sob suspeita de má conduta em cargo público, no contexto de alegações de que teria transmitido informação governamental sensível a Epstein quando ainda exercia funções ministeriais. Apesar de continuar sob investigação, Mandelson tem afirmado repetidamente que não agiu de forma criminosa, não procurou benefício pessoal e está a cooperar com as autoridades.
O caso mantém-se como um dos episódios mais delicados para Starmer desde a chegada ao poder, por combinar julgamento político, reputação internacional, procedimentos de segurança e sensibilidade extrema perante as vítimas de Epstein. Em Westminster, a expectativa é que a pressão sobre Downing Street continue a crescer enquanto persistirem dúvidas sobre o processo que levou Mandelson até Washington.