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Luanda 17:23

A Falsa Lealdade de Bento Kangamba

A Falsa Lealdade de Bento Kangamba

A Memória Seletiva e a Falsa Lealdade de Bento Kangamba

O cenário político e social angolano é frequentemente fustigado por episódios de amnésia conveniente, mas a recente publicação do general Bento Kangamba nas redes sociais consegue atingir um novo patamar de hipocrisia. Ao partilhar uma fotografia antiga ao lado do falecido ex-Presidente José Eduardo dos Santos, acompanhada por palavras comovidas sobre “lealdade” e “amizade até ao fim”, Kangamba não faz mais do que assinar uma declaração de puro oportunismo.

A verdade histórica, aquela que os factos teimam em não apagar, desmente categoricamente a narrativa idílica que o Kangamba tenta agora vender aos seus milhares de seguidores.

O Abandono na Doença e no Isolamento

Falar em “lealdade que não se mede pelas circunstâncias” é um insulto à memória de quem, nos seus momentos mais vulneráveis, conheceu o peso da solidão política. Quando José Eduardo dos Santos deixou a Cidade Alta e a presidência, a corte de bajuladores que antes o cercava evaporou-se. Bento Kangamba foi um dos rostos visíveis desse afastamento.

  • O Silêncio de Miramar: Enquanto o antigo Chefe de Estado esteve na sua residência oficial do Miramar, em Luanda, isolado e fustigado pelas novas dinâmicas do poder, Kangamba manteve uma distância prudente e estratégica. As visitas que hoje fariam jus à palavra “amigo” nunca aconteceram.
  • A Ausência em Espanha: O teste definitivo à alegada fidelidade deu-se além-fronteiras. Nos momentos críticos em que José Eduardo dos Santos esteve internado num hospital em Barcelona, Espanha, lutando pela vida, o general — outrora tão vocal no seu apoio — preferiu ignorar a situação. Não houve viagens de solidariedade, não houve visitas de conforto na cama do hospital, nem a presença que se esperaria de um verdadeiro aliado.

A Conveniência das Redes Sociais

É profundamente fácil evocar o “Tio Zé” e proclamar-se fiel seguidor dos seus ensinamentos quando o visado já não está cá para repor a verdade ou para rejeitar os abraços tardios. A lealdade que Bento Kangamba exibe no ecrã do telemóvel é uma lealdade póstuma, sem custos políticos e altamente coreografada para tentar resgatar uma simpatia popular ou uma relevância que o tempo e as suas próprias opções trataram de esvaziar.

Se a fidelidade se mede pela firmeza dos princípios, como o próprio afirma na publicação, a conduta de Kangamba provou exatamente o oposto: uma fidelidade que flutua ao sabor dos ventos do poder.

Usar o aniversário da morte de José Eduardo dos Santos para encenar uma dor e uma cumplicidade que não existiram na prática é mais do que uma contradição; é uma autêntica pouca vergonha que os angolanos, atentos e com memória, sabem perfeitamente decifrar. A verdadeira lealdade pratica-se em vida, no hospital e no isolamento, e não através de publicações oportunistas no Facebook ou no WhatsApp.

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