A circulação e venda ilegal de fardamento, insígnias e outros meios militares das Forças Armadas Angolanas (FAA) nas redes sociais e em mercados informais está a gerar forte preocupação entre juristas e especialistas em segurança nacional, que alertam para o risco da criação de exércitos paralelos. Por Ireneu Mujoco Imagens de vestuário, distintivos militares (fardas, chapéus, boinas, botas, patentes, cintos e crachás) dos três ramos das FAA — Exército, Força Aérea e Marinha de Guerra — estão a ser publicamente publicitadas e vendidas ilegalmente no mercado negro angolano. O fenómeno, que antes ocorria de forma estritamente clandestina, ganhou nova força em páginas do Facebook e outras redes sociais, onde são exibidos inclusive os respetivos preços para potenciais compradores, variando de acordo com o artigo. Especialistas e fontes próximas do setor sugerem que o desespero financeiro, a fome e a gritante desorganização logística no seio das forças de defesa e segurança têm empurrado militares a recorrerem à venda do próprio material de trabalho para garantir a subsistência em dinheiro vivo (cash). Enquanto o Ministério da Defesa Nacional, Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria (MINDENACVP) mantém um silêncio oficial sobre o caso, os alarmes na sociedade civil e nos órgãos castrenses continuam a soar.Debates e Riscos à Segurança NacionalO assunto ganhou contornos ainda mais graves após episódios recentes de forte carga simbólica e política. Em março, militantes da UNITA desfilaram na cidade do Sumbe, província do Cuanza-Sul, envergando fardamento e botas das antigas FALA (antigo braço armado do partido) durante as comemorações do 60.º aniversário da sua fundação. A aparição de membros do partido do “galo negro” com fardamento militar foi amplamente condenada por vários setores, que classificaram o ato como incomum e perigoso, 24 anos após a conquista da paz. Mais recentemente, uma congregação religiosa no Sumbe também utilizou vestuário semelhante ao das FAA sem qualquer censura prévia, levantando debates sobre a passividade das autoridades e a existência de “dois pesos e duas medidas” na forma como os órgãos de fiscalização atuam.Internautas e cidadãos questionam publicamente a facilidade com que jovens e civis adquirem estes meios, alertando que já não é possível distinguir um militar verdadeiro de alguém que apenas usa uma farda. Especialistas ouvidos alertam que, caso as autoridades não intervenham urgentemente, a situação poderá assumir contornos imprevisíveis, perturbar a segurança nacional e afetar diretamente a estabilidade do país na preparação para as eleições gerais de 2027. Posição de Especialistas e JuristasO prestigiado jurista Salvador Freire dos Santos condenou energicamente a venda e a confeção não autorizada destes materiais, classificando a prática como um crime e um atentado contra a segurança do Estado. “No entendimento do jurista, se as autoridades não reagirem em tempo oportuno, a quantidade de meios que vier a ser adquirida poderá levar à perceção da existência de dois exércitos ou de um exército paralelo”, diz o artigo. Freire reforçou que a única entidade competente para encomendar e gerir meios militares é o Estado, sob a tutela do Ministério da Defesa Nacional e do Estado-Maior General das FAA. Por sua vez, o académico e analista político Agostinho Sicato defende que, embora a crise social e o desemprego empurrem cidadãos para negócios ilícitos para a obtenção de rendimentos, o Estado não pode prevaricar na sua função de proteger os símbolos de soberania. Sicato apela a uma investigação profunda para determinar a real proveniência destes meios, relembrando cenários graves: “As autoridades apelaram à realização de uma investigação para determinar a proveniência destes meios, recordando que, em ocasiões anteriores, houve casos em que membros das próprias Forças Armadas Angolanas e da Polícia Nacional estiveram implicados na venda de fardamento e até de armas de guerra”.Para os analistas, a proliferação de fardas no mercado negro não é apenas uma infração comercial, mas sim um sintoma de vulnerabilidade institucional que coloca em risco o bem mais precioso alcançado pelos angolanos: a paz e a estabilidade social.
FOME E DESORGANIZAÇÃO OBRIGA MILITARES DAS FAA A VENDEREM ARMAMENTO E FARDAMENTO NA INTERNET OU EM CASH NO MERCADO NEGRO EM ANGOLA