Angola e o Sangue da Independência: O Testemunho Cruel dos Anos Pós-27 de Maio
A 11 de Novembro de 1975, Angola proclamava oficialmente a sua independência perante África e o mundo. Em Luanda, Agostinho Neto anunciava o nascimento da nova República Popular de Angola sob o troar dos canhões da batalha de Kifangondo.
Ao mesmo tempo, em Carmona, actual Uíge, e em Nova Lisboa, actual Huambo, Holden Roberto e Jonas Savimbi proclamavam estruturas políticas rivais. A dupla proclamação mergulharia o país numa das mais sangrentas guerras fratricidas da história africana moderna.
“O que resultou dessa dupla e antagónica proclamação foi uma das mais sangrentas guerras fratricidas que dizimou milhares de angolanos.”
Segundo testemunhos históricos reunidos pelo escritor Américo Cardoso Botelho, o cenário agravou-se drasticamente após os acontecimentos de 27 de Maio de 1977, período que continua até hoje envolto em dor, silêncio e controvérsia.
Após a tentativa de golpe atribuída ao grupo de Nito Alves, o regime endureceu a repressão política. Prisões, campos de concentração e execuções sumárias passaram a fazer parte do quotidiano angolano.
Com apoio soviético e cubano, estruturas militares e órgãos de segurança do Estado intensificaram perseguições contra suspeitos de dissidência política, num ambiente marcado pelo medo e pela violência.
O Inferno Prisional
Américo Cardoso Botelho, autor de uma das obras mais marcantes sobre o período pós-27 de Maio, esteve preso entre 1977 e 1980. Durante esse período, afirma ter testemunhado torturas, execuções e graves violações dos direitos humanos dentro das cadeias angolanas.
Segundo o autor, os invólucros de maços de tabaco tornaram-se o suporte improvisado onde registava secretamente testemunhos, nomes e acontecimentos ocorridos dentro das prisões.
“São páginas de um drama; o meu e o de todos esses que conheceram o inferno prisional angolano.”
O escritor afirma que parte dessas anotações conseguiram sair clandestinamente da prisão ao longo de três anos e meio, formando posteriormente o espólio que deu origem à sua obra.
As Valas Comuns e os Fuzilamentos
Um dos relatos mais chocantes refere-se às execuções ocorridas no cemitério da Mulemba, em Luanda, onde dezenas de prisioneiros teriam sido mortos e enterrados em valas comuns durante a madrugada.
Segundo uma reportagem publicada pela revista portuguesa Expresso, em Janeiro de 1992, carrinhas celulares chegavam durante a noite ao cemitério transportando prisioneiros destinados ao fuzilamento.
“Alguns ainda gritavam: ‘Salvem-me que eu não fiz nada’.”
Os relatos descrevem um ambiente de terror absoluto, marcado por execuções rápidas, silêncio forçado e ameaças contra qualquer tentativa de denúncia.
Memória, Justiça e Reconciliação
Décadas depois, os acontecimentos ligados ao 27 de Maio continuam a alimentar pedidos de verdade, responsabilização histórica e reconciliação nacional.
Muitas famílias continuam sem saber o paradeiro dos corpos dos seus familiares desaparecidos durante aquele período.
O testemunho de Américo Cardoso Botelho surge não como instrumento de vingança política, mas como um exercício de memória histórica e defesa da dignidade das vítimas.
“O sofrimento das vítimas não pode ser apagado pelo silêncio.”
Hoje, o debate sobre o 27 de Maio permanece aberto em Angola, dividindo opiniões, reacendendo feridas históricas e levantando novas questões sobre justiça, memória e responsabilidade política.
Nesse mesmo dia, centenas de pessoas são presas e fuziladas. É a caça às bruxas. Nos jornais de Angola lê-se: Os criminosos serão fuzilados. E Neto, publicamente, pronuncia a sentença: não haverá perdão. No dia seguinte, às 19,00h, o responsável do cemitério de Mulemba está a jantar com a família quando aparece um telefonema estranho. O seu chefe de repartição Ordena-lhe que volte ao cemitério e aguarde. O cacimbo ensopa-lhe a roupa quando, de madrugada, param no portão dez carrinhas celulares. Carlos Jorge e Nelson Pinheiro (Pitoco), elementos da DISA, chefiam a expedição que estaciona junto a uma vala comum de 200 metros. Mal os prisioneiros se apeiam, soam rajadas das Kalachinov. Alguns ainda têm tempo de gritar: Salvem-me que eu não fiz nada. Pitoco, chefe do pelotão de fuzilamento, atende rápido ao apelo das vítimas: Esse é perigoso, fica para mim. Um dos coveiros aplana a terra da vala com um tractor. Ainda se ouvem gemidos. O chefe do cemitério está aterrorizado e Pitoco avisa-o: Em Angola não pode haver uma contra-revolução, por isso, se falares, vais fazer companhia a estes.