ANGOLA A DANÇAR A MÚSICA QUE NÃO ESCOLHEU
Quem manda no som são sempre os mesmos maestros da komba nacional.
Sábado é dia de descanso, dizem. Mas em Angola, até o descanso vem com banda sonora oficial. A vitrola nacional não desliga, o vinil gira com disciplina exemplar e o DJ do costume continua firme, com aquele talento raro de mudar tudo… para que tudo fique exactamente igual.
O país acorda, espreguiça-se e lá está: a mesma música. Não é déjà vu, é política pública.
“Angola virou uma grande kizomba política, onde o DJ controla o som, o povo paga entrada, mas quem dança são sempre os mesmos.”
O vinil já está todo riscado, malembe-malembe, mas continuam a tocar aquilo como se fosse novidade fresquinha saída do Dubai.
Toda manhã o angolano acorda com o mesmo playlist:
— “Agora é que vai melhorar!”
— “A juventude é o futuro!”
— “Estamos a combater a corrupção!”
— “O povo está no centro das atenções!”
Enquanto isso, o cidadão enfrenta gasolina cara, bolso vazio, calor de 40 graus e ainda ouve no táxi:
“Chefe, aperta só mais um bocadinho aí atrás.”
O angolano já virou especialista em apertar: aperta no táxi, aperta no orçamento, aperta no coração e até na esperança.
Segundo os especialistas da banda governativa, “o País está a crescer”. Mas no bairro o único crescimento visível é o preço da fuba, do óleo, do frango e das igrejas de profeta com Wi-Fi espiritual.
Mudam as gravatas, mudam os slogans, mudam os jingles eleitorais… mas o semba da confusão continua exactamente igual.
A política virou kuduro psicológico: o cidadão acorda pobre, ouve discurso e vai dormir patriota.
Enquanto isso, muitos dirigentes aparecem apenas para inaugurar placas, cortar fitas e desaparecer no ar-condicionado.
O povo segue em modo sobrevivência: candonga emocional, ginástica financeira e fé nível final boss.
O jovem angolano é aconselhado a “empreender”, mesmo sem recursos, emprego ou oportunidades reais.
“A dívida avança. A inflação avança. E a paciência do povo também.”
No camarote do poder há ar-condicionado, whisky importado e patriotismo patrocinado. Cá em baixo, o povo dança descalço na brita económica.
Mesmo assim, o angolano ainda encontra força para rir. Talvez esse seja o verdadeiro petróleo nacional.
No fundo, Angola parece um baile complicado: a música ninguém escolheu, o DJ ninguém questiona e o povo ninguém ouve.
Mas um dia o povo pode cansar de dançar. E quando o angolano deixa de dançar e começa a pensar… até o vinil do império treme na vitrola.
Fica então uma pergunta:
“E se o problema nunca foi a forma como dançamos… mas sim a música que nos obrigam a ouvir?”
Enquanto o vinil continua a tocar, resta escolher pelo menos a música da panela de um bom feijão de óleo de palma para o final de semana.
Fuiiiiii!