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Luanda 18:33

O POVO ANGOLANO A DANÇAR A MÚSICA QUE NÃO ESCOLHEU

Representação simbólica do povo angolano enfrentando dificuldades sociais e económicas enquanto acompanha o cenário político do país.
ANGOLA A DANÇAR A MÚSICA QUE NÃO ESCOLHEU
Opinião

ANGOLA A DANÇAR A MÚSICA QUE NÃO ESCOLHEU

Quem manda no som são sempre os mesmos maestros da komba nacional.

Sábado é dia de descanso, dizem. Mas em Angola, até o descanso vem com banda sonora oficial. A vitrola nacional não desliga, o vinil gira com disciplina exemplar e o DJ do costume continua firme, com aquele talento raro de mudar tudo… para que tudo fique exactamente igual.

O país acorda, espreguiça-se e lá está: a mesma música. Não é déjà vu, é política pública.

“Angola virou uma grande kizomba política, onde o DJ controla o som, o povo paga entrada, mas quem dança são sempre os mesmos.”

O vinil já está todo riscado, malembe-malembe, mas continuam a tocar aquilo como se fosse novidade fresquinha saída do Dubai.

Toda manhã o angolano acorda com o mesmo playlist:

— “Agora é que vai melhorar!”

— “A juventude é o futuro!”

— “Estamos a combater a corrupção!”

— “O povo está no centro das atenções!”

Enquanto isso, o cidadão enfrenta gasolina cara, bolso vazio, calor de 40 graus e ainda ouve no táxi:

“Chefe, aperta só mais um bocadinho aí atrás.”

O angolano já virou especialista em apertar: aperta no táxi, aperta no orçamento, aperta no coração e até na esperança.

Segundo os especialistas da banda governativa, “o País está a crescer”. Mas no bairro o único crescimento visível é o preço da fuba, do óleo, do frango e das igrejas de profeta com Wi-Fi espiritual.

Mudam as gravatas, mudam os slogans, mudam os jingles eleitorais… mas o semba da confusão continua exactamente igual.

A política virou kuduro psicológico: o cidadão acorda pobre, ouve discurso e vai dormir patriota.

Enquanto isso, muitos dirigentes aparecem apenas para inaugurar placas, cortar fitas e desaparecer no ar-condicionado.

O povo segue em modo sobrevivência: candonga emocional, ginástica financeira e fé nível final boss.

O jovem angolano é aconselhado a “empreender”, mesmo sem recursos, emprego ou oportunidades reais.

“A dívida avança. A inflação avança. E a paciência do povo também.”

No camarote do poder há ar-condicionado, whisky importado e patriotismo patrocinado. Cá em baixo, o povo dança descalço na brita económica.

Mesmo assim, o angolano ainda encontra força para rir. Talvez esse seja o verdadeiro petróleo nacional.

No fundo, Angola parece um baile complicado: a música ninguém escolheu, o DJ ninguém questiona e o povo ninguém ouve.

Mas um dia o povo pode cansar de dançar. E quando o angolano deixa de dançar e começa a pensar… até o vinil do império treme na vitrola.

Fica então uma pergunta:

“E se o problema nunca foi a forma como dançamos… mas sim a música que nos obrigam a ouvir?”

Enquanto o vinil continua a tocar, resta escolher pelo menos a música da panela de um bom feijão de óleo de palma para o final de semana.

Fuiiiiii!

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