O recuo de Angola no Índice Global da Paz (GPI), ao fixar-se na 78ª posição com 1.955 pontos, expõe a fragilidade da estabilidade social quando confrontada com choques económicos severos. O avanço progressivo que o país registou nos dois anos anteriores foi abruptamente interrompido, lançando luz sobre o peso que as políticas internas de austeridade exercem diretamente na segurança quotidiana dos cidadãos e na perceção internacional de risco.
O cerne desta queda reside na forte interligação entre a macroeconomia e o comportamento social. O estopim para a inversão da tendência de paz foi a redução dos subsídios estatais aos combustíveis, uma medida que gerou um aumento imediato dos preços à boca da bomba. O impacto foi sistémico: o encarecimento dos transportes e, consequentemente, dos produtos da cesta básica, desencadeou uma onda de descontentamento que culminou nos três dias de revolta popular em julho do ano passado, afetando diversas províncias angolanas.
Do ponto de vista técnico, a metodologia aplicada pelo Instituto de Economia e Paz (IEP) penalizou Angola em pilares fundamentais de segurança e proteção social:
- Intensificação de Conflitos Internos: A rápida escalada de protestos espontâneos nas províncias alterou o indicador que mede o atrito civil doméstico.
- Manifestações Violentas: A fricção nas ruas e os episódios de destruição material durante os três dias de revolta elevaram drasticamente o score de risco do país.
- Escala de Terror Político e Resposta Policial: O nível de força necessário e as táticas de contenção utilizadas pelas forças de segurança do Estado para travar os tumultos são contabilizados negativamente na métrica de paz interna.
Apesar de a pontuação de 1.955 pontos ainda enquadrar o país no escalão de “paz média” a nível global — o que significa que as estruturas institucionais de segurança básica e a ausência de conflitos armados em larga escala se mantêm sólidas —, o relatório deixa um aviso claro. A paz duradoura não se limita à ausência de guerra ou à desmobilização militar histórica; ela depende diretamente da capacidade do Estado em gerir transições económicas sem fraturar o tecido social.
Para Angola, o grande desafio pós-revolta reside na criação de mecanismos de mitigação e amortecimento social. O avanço das reformas financeiras exigidas pelos mercados globais terá de caminhar a par de políticas públicas que protejam o poder de compra das populações mais vulneráveis, sob o risco de o país continuar a resvalar nas avaliações futuras do IEP.